A Geografia Clássica - Manuel Correia de Andrade

GEOGRAFIA: Ciência da Sociedade - Uma Introdução à Análise do Pensamento Geográfico (Editora Atlas, São Paulo, 1987)

6 - A Geografia Clássica

6.1 CARACTERÍSTICAS DA GEOGRAFIA CLÁSSICA

Podemos admitir, em linhas gerais, que o período clássico seja delimitado pelos anos 1901 a 1946 - ano em que foi concluída a Segunda Guerra Mundial. As delimitações temporais são porém relativas.

A primeira grande diferença com o período anterior foi a queda no prestígio do finalismo positivista e evolucionista e do esforço de encontrar leis gerais que explicassem as diferenciações existentes na superfície da terra, de forma uniforme para todo o planeta. Cresce o prestígio da Geografia Regional, em detrimento da geografia sistemática ou Geral.

Os geógrafos clássicos, vivendo a fase do desenvolvimento do capitalismo industrial e da necessidade de um conhecimento aprofundado do espaço produtivo, partiram do princípio de que a análise das várias partes levaria à soma das mesmas e ao melhor conhecimento do todo. Levavam a Geografia a consolidar-se como uma ciência ideográfica e descritiva, usando o método indutivo, que parte do particular para o geral. Nestes estudos regionais, os alemães preocuparam-se com a descrição e a análise da paisagem, em suas características naturais, enquanto entre os franceses a geografia da paisagem, considerada uma ciência de síntese, dava grande importância à visualização da mesma, tanto em seus aspectos físicos como nas marcas nela deixadas pelo homem.

Os estudos regionais provocaram uma separação entre a Geografia Geral ou Sistemática e a Geografia Regional.

Tentativas foram feitas para explicar as inter-relações entre as ciências, a apresentação da confluência das mesmas com enfoques diversos sobre uma mesma área ou um mesmo tema e os estudos, hoje famosos, de Max Sorre e Pierre George. Entre os geógrafos, numerosos eram os que consideravam a Geografia como uma ciência natural e não como uma ciência social. Mesmo Vidal de la Blache, historiador de formação e muito ligado ao pensamento da escola de historiadores, liderada por Marc Bloch, admitia que a Geografia era uma ciência dos lugares e não do homem. Só posteriormente, com os estudos de Pierre George e Paul Claval, é que se generalizou a opinião de que a Geografia é uma ciência social, do homem, e não uma ciência da natureza. Distinção que tem grande importância epistemológica, pois, se a Geografia fosse uma ciência natural, dos lugares, ela não poderia procurar explicar como e por que a sociedade produz e reproduz permanentemente o espaço social, apenas estudaria os resultados deste trabalho. Como ciência social, humana, a Geografia tem a responsabilidade de analisar a própria sociedade, as relações que influem no tipo de espaço produzido e explicar a razão de ser da ação da sociedade sobre esse espaço. Assunto da maior importância nos dias de hoje.

A geografia clássica, porém, com todas as suas fraquezas, teve grande importância porque atendeu aos desafios que a burguesia, como classe dominante, encontrou na sua luta pela exploração dos recursos e dos homens na superfície da Terra. Como os meios, conforme a situação econômica e social de cada país e os desafios que os governos, comprometidos com as classes dominantes, encontravam para fazer o seu próprio “desenvolvimento”, fossem diversos, ela se fragmentou em escolas nacionais ou até regionais. Surgiram, então, as escolas, uma escola alemã, uma escola francesa, uma escola britânica, uma escola soviética, uma escola americana etc. Estas escolas, porém, não se apresentavam como compartimentos estanques, separadas completamente em suas proposições e métodos; elas se orientavam para estudos de maior interesse para o próprio país e procuravam soluções e orientação que justificassem a ação do mesmo. Serviriam, na Alemanha, para justificar e tentar legitimar a luta pelo espaço vital, na França e na Grã-Bretanha para melhor conhecer os seus impérios coloniais, nos Estados Unidos e na Rússia para justificar e consolidar a expansão por áreas contínuas e habitadas por povos pobres que permaneceriam sob o seu domínio e orientação. Tinham essas escolas, como não poderia deixar de ser, um sentido profundamente nacionalista, estavam comprometidas com os governos de que dependiam e a que serviam.

6.2 A ESCOLA ALEMÃ

Tendo sido a Alemanha o país em que primeiro a Geografia se institucionalizou e onde viveram e ensinaram os três grandes geógrafos, considerados tradicionalmente como pais da Geografia Moderna - Humboldt, Ritter e Ratzel -, é natural que aí se desenvolvessem, em profundidade, os estudos geográficos do período clássico e que as ideias germânicas se expandissem por outros países, sobretudo nos Estados Unidos.

[…]

Os estudos de interesse político continuaram os trabalhos de Ratzel, não só em obras de Geografia, como também em Geopolítica. Nesta linha de pensamento, os estudos de A. Dix e, posteriormente, de Haushofen passaram da ciência à propaganda, tentando legitimar a política expansionista alemã e defender a conquista de territórios vizinhos aos eslavos e latinos. Para isto consideravam os alemães como arianos, superiores aos outros povos brancos, e admitiam a necessidade de expansão do seu espaço vital.

Na área econômica merece destaque Leo Waibel, que desenvolveu, dentro de uma linha naturalista, os estudos de Geografia Tropical, inclusive no Brasil, onde aprofundou a análise dos resultados da colonização alemã nos estados do Sul, como se procedeu à produção do espaço colonial no Sul do Brasil e quais os resultados obtidos pelo homem, pela sociedade na utilização da natureza. Também merecem destaque na geografia alemã os estudos de Geografia Econômica, dirigidos e coordenados por Otremba.

Deve-se levar em conta ainda a importância dos estudos de teoria da localização, aplicada tanto à agricultura como à indústria, por pensadores alemães. Desde o século XVIII, von Thünen procurou desenvolver raciocínio sobre a existência de um estado ideal, fisicamente uniforme que se desenvolveria a partir de um centro dinamizador - a capital - com zonas concentradas, a partir deste centro, as mais próximas, especializadas na produção de mercadorias com necessidade de consumo mais rápido e de maiores proporções até aquelas de manutenção de florestas. Esta teoria daria origem a especulações de outros estudiosos alemães, economistas, quase sempre, como Alfred Weber e Lösch, e chegaria até Walter Christaller, que na década de 30 desenvolveu a teoria dos lugares centrais, pouco aceita ao ser formulada, mas que alcançou grande difusão após a Segunda Guerra Mundial, Christaller baseou-se em estudos sobre a Alemanha Meriodional, analisando a difusão, pelo espaço, de cidades, classificadas de acordo com seu porte, e procurando estabelecer sua área de influência, de acordo com nível de demanda por produtos mais ou menos especializados. A reflexão sobre os seus trabalhos na década de 60 e 70 provocou grande florescimento da chamada geografia quantitativa e do consequente uso de métodos matemático-estatísticos nos estudos geográficos. Ela contribuiria para a perda de influência da geografia regional e representava uma volta ao positivismo, alimentando a escola neopositivista moderna.

6.3 A ESCOLA FRANCESA

A Escola Francesa formou-se na primeira metade do século XX, tendo por centro as ideias defendidas por Vidal de la Blache, primeiro geógrafo francês a ocupar uma cátedra universitária de Geografia. A derrota da França frente à Alemanha em 1871 foi por muitos tida como consequência do ensino ministrado no país e considerado de inferior qualidade ao ministrado na Alemanha.

[…] A cadeira foi confiada ao historiador La Blache, que exercera sua profissão na Grécia […]. Tendo sido discípulo de Ritter, estava imbuído de preocupações geográficas e aceitava, até certo ponto, a influência do meio sobre o homem. Tanto que nunca considerou a Geografia como uma ciência social, mas como uma ciência natural, “dos lugares”.

[…] Preocupou-se então com o estudo das relações entre o homem e o meio físico, passando a admitir que o meio exercia alguma influência sobre o homem, mas que este, dependendo das condições técnicas e do capital de que dispunha, poderia exercer influência sobre o meio. Daí o surgimento da expressão possibilismo, divulgada por Lucien Febvre, hoje apontada como a principal característica da escola francesa de Geografia. […] Tendo acesso fácil ao poder do Estado, divulgou os princípios que nortearam, em grande parte, os estudos geográficos da França, colocando em segundo plano os trabalhos, até então muito divulgados, de Élisée Reclus. Era a Geografia do Estado, institucionalizada na Universidade e ligada às classes conservadoras, a combater a Geografia popular, divulgada nos vários setores da população, desligada do poder público, opondo-se aos senhores do dia e a serviço da reforma social. […]

As ideias básicas de La Blache combatiam a evolução linear. […] Valorizando a intuição, o “olho clínico” do geógrafo. […] Ao geral ele contrapôs o regional […]. Desenvolveu de tal forma os estudos regionais, que seus continuadores passaram a admitir que a essência da Geografia estava no Regional porque nele se conciliava, se integrava o físico e o humano. Na realidade, não havia uma integração, mas apenas uma justaposição.

Admitindo que a região ou o meio físico é o suporte que o homem utiliza para viver, para fazer suas construções, para extrair os produtos de que necessita, Vidal de La Blache estimulou grande preocupação nos geógrafos com a descrição do meio, das formas de utilização do mesmo e deu base à formulação da noção de gênero de vida, vital ao esquema de trabalho. Para ele, o gênero de vida seria o conjunto articulado de atividades que, cristalizadas pela influência do costume, expressam as formas de adaptação, ou seja, a resposta dos grupos humanos aos desafios do meio geográfico. A noção de gênero de vida aproxima-se assim da noção antropológica de cultura, tão usada pelos alemães e americanos. Esta noção levaria a uma visão estática e rural da Geografia, quando nas ciências sociais em geral se dava maior importância à categoria classe social, na análise da sociedade.

Mas a Escola Geográfica Francesa não apresentava uma estrutura monolítica, havendo muitos dos geógrafos nela classificados que aceitavam, em parte, as ideias de La Blache e discordavam do mestre em outras. Merece maior destaque Emanuel de Martonne […], famoso por haver desenvolvido estudos de Geografia Física […]. Martonne foi muito influenciado pelas ideias do norte-americano W. M. Davis, que formulou uma teoria geral sobre evolução do relevo, admitindo que ela era comandada pelo escoamento fluvial - tipo dominante nos países de clima temperado - e de forma cíclica, apresentando-se o relevo jovem, quando ainda muito escarpado e pouco erodido, maduro e velho, quando o processo erosivo chegara ao fim de sua obra. Apesar de aceitar as ideias centrais, Martonne atenuou a rigidez das mesmas, salientando que as formas de relevo evoluem de forma diferente em condições climáticas e em estruturas geológicas diversas.

[…]

Camille Valloux é uma figura singular na geografia francesa da primeira metade do século XX; escreveu livros diversos sobre geografia histórica, geografia política, em que faz uma classificação das fronteiras em três tipos, as vivas, as mortas e as esboçadas, e outros sobre geografia dos mares […].

Os estudos de geografia política não ficaram apenas com Valloux, de vez que, como a França possuía o segundo maior Império colonial do mundo, passou a realizar estudos sobre a geografia das suas colônias, aprofundando o conhecimento do meio tropical e das formas de exploração dos recursos existentes no mesmo, e a racionalizar as formas de dominação colonial. George Hardy escreveu livro clássico sobre o assunto, retomando as ideias de Relcus ao fazer uma tipologia dos países colonizados em três grupos: colônias de exploração, colônias de povoamento e colônias de posição. A Universidade de Boudeaux foi o principal centro de estudos coloniais. Com a descolonização, a expressão Geografia Colonial foi substituída pela Geografia Tropical, procurando não só atenuar o choque sobre os colonizados, como também utilizar métodos de estudos e de análise mais compatíveis com o processo de descolonização.

Ainda merecem referência entre os grandes geógrafos da escola clássica francesa nomes como o de Max Sorre, de orientação profundamente ambientalista e que retomou uma linha biológica para a explicação dos fatos geográficos, tendo escrito um livro fundamental para a compreensão desta linha de pensamento e se preocupado com as relações entre a Geografia e as ciências sociais […].

De forma geral pode-se admitir que a Escola Geográfica Francesa, apesar das divergências que naturalmente existam entre os seus principais mestres, caracterizou-se por acentuada preocupação regionalista, por uma orientação ideográfica, por uma posição política conservadora, encoberta por neutralidade científica, e por dar grande importância a descrição, embora não menosprezasse a explicação. Profundamente ligada à Universidade, à formação cultural, teve de se transformar para se adaptar às novas condições criadas pela Segunda Guerra Mundial, quando o geógrafo foi chamado a participar da reconstrução, do planejamento; teve de depender menos da análise do homem/meio e dar maior importância ao papel da indústria e das cidades na produção e na reorganização do espaço.

6.4 A ESCOLA BRITÂNICA

A Escola Britânica, em grande parte ligada às Universidades de Cambridge e Oxford, foi muito influenciada pela Escola Francesa, valorizando os estudos regionais e preocupando-se com gêneros de vida. Na Inglaterra, o papel das sociedades exploradoras ganhou importância considerável em face da necessidade que os ingleses tinham como colonizadores de territórios e de povos situados nas mais diversas zonas da Terra, de conhecer os problemas dessas áreas e de dominar os povos que nelas habitavam; povos que tiveram sua economia direcionada no sentido de atender às necessidades inglesas. Nesses estudos se observa, de forma gritante, o comprometimento ideológico da Geografia e a sua preocupação militar. Foi necessário, para o geógrafo inglês, analisar a importância das comunicações e das relações entre o dominante e os dominados, assim como entre os diversos povos dominados, para melhor exercer a sua prepotência. Daí a importância adquirida pela Geopolítica e a importância e o prestígio, no pensamento inglês, das ideias pregadas pelo geógrafo e parlamentar Helford J. Mackinder. Este pensador desenvolveu suas ideias em vários livros, mas a conferência que pronunciou na Sociedade Geográfica Real em Londres, a 25 de janeiro de 1904, marcou época pela sintetização que fez da situação geopolítica mundial.

Nesta conferência, ele admitiu a existência de áreas coração ou país pivô, que se encontram em um ponto central que os beneficia como centro potencialmente forte para dirigir agressões e dominar os países vizinhos e também aqueles que se apresentam, em face de sua extensão, sob ameaça dos povos vizinhos. Considerou a Eurásia - Europa, Ásia e África do Norte - como a área central, em escala mundial desde a expansão dos descobrimentos e da dominação colonial, considerando a vocação da mesma para dominar o mundo. […]

[…] Os países situados na área nuclear, central (Eurásia e Rússia, por exemplo), tinham melhores condições de exercer sua influência, seu poder de pressão sobre os demais. Naturalmente que já antevia uma desestruturação do domínio russo em face do perigo de uma revolução social, vendo pontos em que este país poderia ser atacado pelas forças inglesas, no mar Negro e no Afeganistão. Daí certamente o apoio inglês e de seus aliados à revolução anarquista na Ucrânia, no início da década de 20, e as preocupações ocidentais com a invasão soviética ao Afeganistão.

Para ele, o Oceano Atlântico era a linha de limite entre o ocidente (Eurásia) e o Oriente, e neste oriente uma área coração era representada pelos Estados Unidos, que, utilizando o poder terrestre, estendera os seus domínios até o Pacífico e que no século XX, apossando-se de colônias e protetorados no Caribe e no Pacífico e ligando os dois oceanos pelo canal do Panamá, expandira o seu domínio, a sua área de influência sobre a América Latina e o Pacífico.

Meditando-se hoje sobre os seus ensinamentos, chega-se à conclusão de que no começo do século XX, baseado em suas concepções políticas bastante impregnadas de determinismo, Mackinder previa a grande disputa pelo domínio mundial que hoje, nos fins da década de 80, se desenrola entre soviéticos e americanos.

Se os ingleses deram maior importância pragmática à Geografia para uso externo, também souberam fazê-lo para uso interno. Assim, durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Inglaterra, bloqueada pelos alemães, viu-se sujeita a bombardeios diários e à falta de alimentos essenciais, foi outro geógrafo, Dudley Stamp, o professor da Escola de Ciências Sociais de Londres, quem orientou e dirigiu o planejamento regional para melhor reorganização do território, desenvolvendo a política que se chamou Town and Country Planning, que previa a regionalização da agricultura na Grã-Bretanha e a reconstrução de forma descentralizada das cidades que apresentavam grande concentração demográfica. Assim, para Londres, que estava sendo destruída pelos grandes bombardeios, ele previu não a construção nas linhas anteriores, mas a reconstrução dos edifícios destruídos acompanhada da implantação, em torno da capital e, a certa distância, de uma série de cidades satélites cuja população não deveria exceder algumas dezenas de milhares de habitantes, por cidade. Estas cidades não seriam simples dormitórios, porque haveria o problema do fluxo e refluxo nas horas de início e de fim do período de trabalho, em uma e outra direção, mas cidades dotadas de serviços e de indústrias que empregassem certa quantidade de pessoas e oferecessem a estas serviços essenciais. Com isto seria controlado o crescimento urbano excessivo, que preocupava os estudiosos e os administradores, e simplificava-se o problema dos transportes, de segurança, de abastecimento, de saneamento etc. Dudley Stamp iniciava desse modo uma geografia pragmática, para uso interno de cada país, e que teria grande importância, no pós-guerra, em diversos países, embora com nomes diferentes, como organização do espaço, na Holanda; aménagement du territoire, na França; planejamento regional, no Brasil, e que levaria o geógrafo a participar de equipes multidisciplinares em trabalho nos órgãos governamentais.

Nesta nova fase a Geografia iria continuar a ter preocupações com o regional, mas passava a usar maiores escalas, passando muitas vezes a ser utilizada em escala nacional ou até pelas organizações internacionais, a nível continental.

6.5 A ESCOLA NORTE-AMERICANA

A Escola Geográfica Norte-americana desenvolveu-se a partir da segunda metade do século XIX, tendo sido muito estimulada pela migração de dois geógrafos suíços para os Estados Unidos, Arnold Guyot e Louis Agassiz, que desenvolveram estudos de geografia regional e de geomorfologia, de acordo com os modelos germânicos. O segundo realizou estudos também no Brasil, sobretudo na área da Amazônia, desenvolvendo uma linha ecológica, inspirada nos trabalhos de George Perkins March.

Em consequência do aporte destes dois mestres, teve a geografia americana maior desenvolvimento em seus aspectos físicos, destacando-se J. W. Powell, na geomorfologia, estudando o Oeste, e Willian Morris Davis, que foi o grande teorizador da geomorfologia em seu tempo, de vez que foi o autor da teoria do ciclo de erosão fluvial, baseado nas observações feitas nos Estados Unidos, em áreas de clima temperado úmido. […]

Quanto à geografia humana, os historiadores de Geografia admitem a existência  de duas escolas americanas, a de Chicago e a de Berkeley. Na primeira dominaram geógrafos inspirados em Ratzel, como a Senhora Elen Semple e E. Huntington. A primeira levou ao extremo as teorias deterministas, o que servia para legitimar a expansão norte-americana para Oeste, dizimando as tribos indígenas, e para o Sul conquistando mais da metade do território mexicano. […] Depois, baseados na doutrina de Monroe, expandiram estes domínios pelas Américas Central e do Sul. Huntington, também determinista, em livros muito bem escritos afirmava que as civilizações só poderiam surgir nas regiões de clima temperado, o que justificava uma política de dominação sobre os povos tropicais.

A Escola de Berkeley ou da Califórnia teve a sua principal figura em Carl Sauer, que também se deixou influenciar profundamente por geógrafos alemães, como Hettner, e pela chamada escola histórico-cultural. Trabalhando no Oeste, em área de clima seco, desértico, ele observou e analisou as civilizações indígenas, admitindo um condicionamento da atividade humana pelo meio físico, com a adaptação das civilizações ao meio natural. Dando grande importância às culturas, ele aproximou a Geografia da Antropologia, como acontecera na França com os discípulos de J. Brunhes.

Finalmente, o teorizador da Geografia da escola clássica norte-americana foi Richard Hartshorne, que, muito influenciado pelo pensamento de Hettner, procurou desenvolver reflexões sobre a epistemologia, sobre a natureza da Geografia como ciência. Em dois livros, A natureza da geografia, publicado em 1939, e Propósitos e natureza da geografia, publicado em 1966, desenvolveu as teses do mestre alemão a quem seguia e especulou sobre a análise das inter-relações entre os fenômenos, admitindo duas formas de estudá-los: ou a partir do particular, da região, quando se fazia a geografia a que chamou de Ideográfica, ou de forma generalizadora, aquilo que se considera como Geografia Geral, ao se fazer o que denominava Geografia Nomotética. Hartshorne pode ser considerado o maior teorizador da escola clássica nos Estados Unidos.

6.6 A ESCOLA SOVIÉTICA

A geografia russa do período imperial recebeu grande influência do pensamento alemão, em vista da proximidade geográfica entre os dois países e das relações culturais estabelecidas desde o tempo de Pedro, o Grande. Vivendo em uma região de condições climáticas muito rigorosas e tendo dificuldades para o desenvolvimento da agricultura, os russos concentraram os seus estudos nos climas e nos solos, daí o grande desenvolvimento da pedologia soviética.

As variações zonais das formações vegetais que se sucedem de norte a sul fazem com que a paisagem, do ponto de vista fisionômico, seja muito marcada pela vegetação. Como consequência, Doukontchev tentou classificar as paisagens do ponto de vista fitogeográfico.

A exploração das terras árticas, já iniciada no século XIX por Kropotkin, fez com que os russos trouxessem para a geografia precioso conhecimento sobre os sistemas de erosão glaciar e periglaciar, assim como sobre os problemas de escoamento fluvial desta região. […]

Com a revolução bolchevista e a aplicação do planejamento à Economia, os geógrafos foram convocados para prestar serviços nos trabalhos de construção de novas cidades, de vias de comunicação e de organização do espaço agrícola e industrial, a fim de corrigir os desníveis de desenvolvimento regional. Foram também largamente utilizados nos planos de ocupação das áreas desérticas da Ásia Central, onde se desenvolveram culturas tropicais, como o algodão e a cana-de-açúcar.

Como os soviéticos foram os pioneiros na planificação da economia e também os pioneiros na compreensão de que a importância da geografia não era apenas cultural, acadêmica e política, mas também que ela poderia ser aplicada no planejamento do território, tal fato abriu largas perspectivas de inovação para os trabalhos do géografo.

Palavras finais

Em geral a geografia clássica manteve-se ambientalista - dentro de princípios ora menos ora mais ortodoxos - na análise da relação entre o homem e o meio ambiente, sendo a unidade da ciência mantida. A Segunda Guerra Mundial traria modificações acentuadas na superfície da terra, nas relações entre os homens na sociedade e nas relações entre a sociedade e a natureza, o que deu margem a grandes transformações, abrindo novos caminhos, novas perspectivas ao conhecimento geográfico. As superestruturas são condicionadas pelas infra-estruturas, e a Geografia, a cultura, é uma superestrutura.

Yi-Fu Tuan

TOPOFILIA - Um Estudo da Percepção, Atitudes e Valores do Meio Ambiente (Difel, São Paulo/Rio de Janeiro)

Capítulo Nove - Meio Ambiente e Topofilia

O termo topofilia associa sentimento com lugar. […] Examinar o papel do lugar ou meio ambiente como produtor de imagens para a topofilia, pois esta é mais do que um sentimento difuso, sem nenhuma ligação emocional. O fato das imagens serem extraídas do meio ambiente não significa que o mesmo as tenha determinado, nem que necessitamos acreditar que certos meios ambientes possuem o irresistível poder de despertar sentimentos topofílicos. O meio ambiente pode não ser a causa direta da topofilia, mas fornece o estímulo sensorial que, ao agir como imagem percebida, dá forma às nossas alegrias e ideais.

Os meios ambientes de atração permanente

As pessoas sonham com lugares ideais. […] Em qualquer lugar onde haja seres humanos, haverá o lar de alguém - como todo o significado afetivo da palavra. […] A maioria das pessoas prefere um meio ambiente mais hospitaleiro para viver, embora ocasionalmente deseje estimular seu gosto estético com uma visita ao deserto. Ideia de refúgio. Três outros ambientes naturais têm, em diferentes tempos e lugares, atraído fortemente a imaginação humana: a praia, o vale e a ilha.

A PRAIA

Para começar, sua forma tem dupla atração: por um lado, as reentrâncias das praias e dos vales sugerem segurança; por outro lado, o horizonte aberto para o mar sugere aventura. Segundo Carl Sauer: “nenhum outro ambiente é tão atrativo para o aparecimento do homem. O mar, especialmente a parte da praia que sofre a maré, apresentou a melhor oportunidade para comer, fixar, reproduzir e aprender. Permitiu provisões abundantes e diversas, contínuas e inesgotáveis […]”.

O crescimento rápido dos balneários, principalmente a partir de 1850, deu-se graças à construção das ferrovias. Os fluxos para o mar, quer de um dia, de um fim de semana ou de temporada foram um fenômeno pós segunda guerra mundial e refletem a crescente afluência das classes média e média-inferior e o rápido aumento do uso do automóvel. Fatores econômicos e tecnológicos explicam o aumento do volume do movimento para o mar, porém não explicam porque em primeiro lugar as pessoas acham o mar atrativo.

O VALE

[O vale] promete uma subsistência fácil por ser um nicho ecológico altamente diversificado: há uma grande variedade de alimentos nos rios, nas planícies de inundação e nas encostas dos vale. O vale acumula água em seus cursos, em poças e em fontes. Os agricultores valorizam os solos ricos dos fundos dos vales. Houve dificuldades: vegetação intrincada da planície de inundação pode abrigar animais selvagens e ser difícil de limpar. A planície pode ser mal drenada e foco de malária; está sujeita à inundação e às flutuações maiores de temperatura. Os solos são pesados. Dificuldades foram evitadas e mitigadas. As amplas planícies pantanosas sujeitas a inundações foram evitadas como lugar de fixação, os povoados apareceram nos terraços secos e no sopé das vertentes. Foi nos vales e nas bacias de tamanho médio que a humanidade deu os primeiros passos para a agricultura e para a vida sedentária em grandes vilas comunitárias.

Os cumes das montanhas e outras saliências são escadas para o céu, o lar do deuses. Ali o homem poderia construir templos e altares, exceto suas próprias moradas, a não ser para escapas de ataques.

A ILHA

Sua importância reside no reino da imaginação. No mundo, muitas das cosmogonias começam com o caos aquático: quando a terra emerge, necessariamente é uma ilha. A primeira colina também foi uma ilha e nela a vida começou. Em inúmeras lendas a ilha aparece como a residência dos mortos ou dos imortais. Além de tudo ela simboliza um estado de inocência religiosa e de beatitude, isolado dos infortúnios do continente pelo mar.

O meio ambiente grego e a topofilia

As imagens da topofilia são derivadas da realidade circundante. As imagens mudam à medida que as pessoas adquirem novos interesses e poder.

Paisagem e pintura de paisagem na Europa

Os sentimentos topofílicos do passado estão irremediavelmente perdidos. Nós não podemos esperar que as artes visuais nos revelem como eram no passado certos lugares; nem podemos esperar entender porque os artistas as escolheram, mas podemos tomar as paisagens pintadas como estruturações particulares da realidade que, durante um tempo, desfrutaram da apreciação popular.

A paisagem é um arranjo de aspectos naturais e humanos em uma perspectiva grosseira; os elementos naturais são organizados de tal forma que proporcionam um ambiente apropriado para a atividade humana.

Por que o artista decide pintar certos aspectos da realidade e não outros? A resposta não pode ser simples porque entre as influências que sofre o artista, está seu treinamento acadêmico, as habilidades técnicas disponíveis, a simbologia da natureza em seu tempo e os cenários que o rodeiam.

O meio ambiente chinês e a topofilia

O termo chinês para o gênero artístico “paisagem” é shan shui (montanha e água). os dois grandes eixos da pintura paisagística, vertical e horizontal, são abstraídos da justaposição de montes íngremes e de planícies aluviais que são características da topografia chinesa.

Ruy Moreira

PARA ONDE VAI O PENSAMENTO GEOGRÁFICO? - Por uma epistemologia crítica (Editora Contexto)

A Insensível Natureza Sensível (p. 47)

O que concebemos por natureza na geografia

A um conjunto de corpos ordenados pelas leis matemáticas, eis o que temos chamado de natureza.

  • Relevo: a base territorial
  • Geologia: o substrato do substrato
  • Clima: a alma do substrato
  • Bacia fluvial: a artéria do corpo territorial
  • Solo: o útero da terra
  • Vegetação: vida sem vida, anti-gravidade
  • Planeta Terra: uma grande máquina

O planeta terra é, assim, um conjunto de partes autônomas, reunidas pela lei da gravidade, lei da unidade do planeta, extensiva à unidade do universo. Esta é a concepção de natureza e a fonte do nome que lhe damos.

As fontes e a evolução da concepção da natureza na geografia

A geografia está, nesta concepção, acompanhando o conceito de natureza que se torna dominante com o advento do paradigma moderno de ciência. Reforçado em sua opção pelo orgânico.

Da natureza-divina à natureza-matemático-mecânica

  • Heliocentrismo de Copérnico (1473-1543);
  • Método experimental por Francis Bacon (1561-1626) e Galileu Galilei (1564-1642);
  • Mecânica celeste de Kepler (1571-1630);
  • Geometrização do mundo por Descartes (1596-1650);
  • Lei da gravidade de Isaac Newton (1642-1727).

A visão gravitacional significa a dessacralização da natureza. E assim um conceito novo e inteiramente distinto daquele até então vigente. A natureza ganha moto próprio, regendo-se por uma lei natural e intrínseca a ela, não mais pela ação de impulsos externos e não mais povoada por nada que não seja de essência natural. A natureza deixa de ser a morada de Deus e passa a ser concebida como tudo que se expresse por um conteúdo físico-matemático. […]

Uma grande revirada então se deu. O mundo-corpo-divino do espaço sagrado é substituído pelo mundo corpo-físico-matemático do espaço geométrico. O mundo-dos-acidentes-naturais com os quais Deus interferia no destino dos homens dá vez ao mundo-das-leis-físicas-regidas-pela-matemática.

Da natureza-mecânica à natureza-desumanizada

Em Galileu e Descartes, a natureza não está propriamente dissociada de Deus. Se a natureza é um grande relógio que funciona com a regularidade mecânica do movimento dos corpos celeste, Deus é o relojoeiro. Observa-se aqui, porém, um grande pacto entre a ciência e a religião: a ciência cuida da coisa física, deixando o homem para a metafísica.

Da natureza desumanizada ao homem desnaturizado

Estamos, assim, perante um conceito de natureza de absoluta e recíproca relação de separação e externalidade com o homem. Uma natureza fechada em si mesma.

Expulso uma primeira vez ao ser excluído do paraíso por Deus, o homem é expulso agora pela segunda vez pelos físicos, só lhe restando o mundo da metafísica. Nasce a base da dicotomia homem-meio característica do pensamento moderno.

Do homem desnaturizado ao mundo tricotomizado

Separado da natureza, o homem triplica em si mesmo essa dicotomia: seu corpo é natureza e sua mente é espírito. Em conseqüência, seu mundo se torna tricotômico: nele separam-se natureza, corpo e mente.

Diante da separação entre a res extesa e a res cogitans, como pode o homem vir a conhecer o mundo, se qualitativamente dele não faz parte? A solução para esse impasse, sabemo-lo, Descartes encontrou em Deus, a substância comum. Deus, o grande arquiteto desse mundo desintegrado, salva-o como sua substância unitária.

Do mundo tricotomizado à natureza pulverizada

O princípio da tricotomia se traduzirá numa pulverização da natureza: a redução do entendimento da natureza ao corpo físico quebra-a numa quantidade infindável de corpos separados pela mesma recíproca relação de externalidade.

Todo corpo ocupa um lugar no espaço e cada lugar só é ocupado por um corpo.

Da natureza pulveriada à natureza técnica

Coleção de corpos de movimento apreensível, previsível, e controlável em face de seu comportamento repetitivo, regular e constante, e por isto regido por leis preditivas, a natureza torna-se uma grande máquina, uma engrenagem de movimentos precisos e perfeitos, que o homem pode controlar, transformar em artefatos técnicos e explorar para fins econômicos.

Não é preciso muito esforço para se notar o vínculo que tem essa concepção mecanicista com a Revolução Industrial em andamento na economia das sociedades européias.

Desde o seu nascimento, a ciência moderna está comprometida com o projeto histórico de construção técnica do capitalismo. […] A visão do sistema solar como uma grande engrenagem, que depois será generalizada para o todo da natureza no universo, é a ante-sala da revolução científico-técnica cujo ensaio é a manufatura, o embrião da fábrica moderna e contemporânea do nascimento da física.

Da natureza técnica ao homem-força-de-trabalho

O corpo humano é um dos corpos consumidos na fábrica. Difere por possuir valor-de-uso específico. Vale para o sistema na medida que é força-de-trabalho na transformação de recursos da natureza em produtos de valor econômico.

Nesta fusão da natureza com a fábrica, que faz da física uma espécie de vertente da economia política, o homem tem o mesmo destino dado à natureza, e recebe o mesmo tratamento utilitário e pragmático dado a esta. Mas aqui há se estabelece uma situação de ambiguidade, que aos poucos vai se revelando uma das maiores contradições a tensionar o sistema: por um lado, o homem é um entre outros tantos corpos que o sistema fabril vai retirar do entorno para consumir industrialmente; por outro, é uma forma distinta de natureza, porque lida com ela numa relação de sujeito e objeto.

Estamos no século XVIII e observamos a concepção cartesiano-newtoniana de natureza deslocar-se do campo da física para o da economia política, com ponto de encontro na fábrica, arrastando o homem na mesma direção de tudo ver como força produtiva para fins de acumulação de capital, atuando como demiurgo que desde o início estivera na origem do novo paradigma.

Do homem-força-de-trabalho ao triunfo do paradigma físico

Por força de sua plena consonância com a economia política da indústria, o modelo de ciência da física se torna o paradigma geral do conhecimento humano. Primeiro à química, depois à biologia, a física vai transferindo para cada ciência o método experimental e a concepção da natureza como um sistema de corpos ordenados num espaço cartesiano e orientados nas leis do movimento mecânico com que opera. Logo o estenderá à economia e à psicologia, entrando pelas ciências do homem.

É no século XIX, porém, que a referência no modelo da física se ergue como um paradigma geral, referenciado pelas mãos do sistema de ciências do positivismo.

Sua base é o método experimental-matemático. A chave do processo é o conceito de repetição e regularidade, de tal modo entendidos como o movimento que se reproduz sempre dentro da mesma margem de proporções matemáticas, numa constância que possa ser declarada lei científica.

Do triunfo do paradigma físico à crise da concepção mecânica da natureza

De um lado, as ciências, transformadas em forças produtivas com a Revolução Industrial, fazem a investigação enveredar na direção da estrutura interna da natureza, saindo das relações de externalidade, sobre as quais a física edificara conceitualmente suas teorias, para as de internalidade, em relação às quais, consequentemente, não está instrumentada. Inicia-se o questionamento do naturalismo macanicista.

A ideia de movimento que traz mais impacto é a oriunda do desenvolvimento da biologia. A biologia prova o pertencimento empírico dos homens e demais seres vivos ao mundo da natureza, tanto quanto os entes do paradigma físico-mecânico. Assim como a lei da conservação da energia, de Lavoisier, as pesquisas de naturalistas e biólogos, Lamarck (1744-1829) à frente, vão ombreando o movimento evolutivo das espécies ao estatuto epistemológico do movimento mecânico dos corpos.

E traz mais impacto ainda a descoberta do movimento social, manifesto no mundo prático e institucional da sociedade, o primeiro em face da Revolução Industrial e o segundo em face da Revolução Francesa de 1789.

Da crise da concepção do movimento mecanicista da natureza à busca de um encaixe conceitual unitário para a natureza, o homem e o mundo

  • Filosofia idealista alemã: Kant (1724-1804); Hegel (1770-1831). Incapacidade da ciência de dar conta de si mesma. Natureza é, para Kant, o que nos vêm à percepção por meio da experiência sensível. Um conceito que mantém o mundo como uma coleção de corpos organizados por leis físico-matemáticas, mas explicados pelos conceitos a priori da razão.
  • Filosofia positivista: Comte (1798-1857) com o naturalismo mecanicista; Spencer (1802-1903) com o naturalismo organicista.
  • Charles Darwin (1809-1882): homem se origina  da evolução natural, portanto do desenvolvimento histórico natural da própria natureza; fere de morte, assim, o paradigma físico da natureza e o pacto ciência-metafísica concertado nos albores da modernidade.
  • Spencer combina lei da evolução com lei da gravidade, sob o primado desta. Assim, a noção de harmonia se inspira na noção orgânica do funcionamento dos corpos vivos, que remete à ideia do organismo como o protótipo da máquina perfeita. É assim que Spencer vê a sociedade humana, como um grande organismo.
  • Thomas Robert Malthus (1766-1834): dinâmica da população obedece a leis matematicamente rigorosas. Tendência ao desequilíbrio entre população e alimentos, gerando tensões, que podem ser evitadas por meio da contenção da natalidade. Poder da intervenção humana. Fenômeno social é apresentado como um fenômeno orientado por leis naturais. Luta de classes vira a “luta pela vida” entre as espécies.

Da busca de um encaixe unitário para a natureza, o homem e o mundo à economia política da natureza-fator-terra de produção

Com o positivismo, o pensamento moderno se integra num sistema completo de ciências que vai da matemática e da física à sociologia e à economia. O arsenal da natureza vira fator-terra da moderna economia e as ciências naturais, o seu inventariante.

Jevons (1835-1882), Menger (1840-1921) e Walras (1834-1910) são os criadores da teoria econômica desse encaixe, a economia marginalista, um discurso dos fenômenos econômicos dissociados dos fenômenos sociais, tema de especialização da sociologia.

Sob o termo terra, a economia clássica referia-se no passado ao solo agrícola, como meio de produção por excelência da economia agropastoril. Com o advento da indústria, terra passa a ser todo o arsenal dos recursos naturais de um lugar. E é o esse conceito prático e utilitário da natureza, já embrionado no paradigma físico-matemático do século XVIII, o século da economia fisiocrata, que ganha sua expressão máxima com a ciência positivista dos séculos XIX-XX. A natureza e o homem são ambos amplamente transformados em fatores de produção, a boa ciência significando o uso econômico o mais racional possível - racional denotando custos e lucros - desses recursos, valorizando o papel do fator encarnador dessa racionalidade, o fator capital. […] A natureza é negociada no mesmo mercado no qual o capital fará negócio com a força de trabalho.

Da economia política da natureza-fator-terra de produção à natureza da geografia física

A geografia física que conhecemos nasce e expressa então esse de especializações e valores práticos do pragmatismo industrial do século XIX. Exprime-se nesse âmbito como uma especialista da natureza inorgânica, com a função de inventariar sua repartição e arrumação corológica na superfície terrestre para os fins do seu uso prático na sociedade. […]

É preciso, no entanto, distinguir a ciência que aparece em dois diferentes tempos na história da geografia moderna sob esse mesmo nome. Uma coisa é a geografia física do século XVIII. Uma outra diferente é a geografia física que surge a partir da segunda metade do século XIX. A primeira é a geografia holista, que aparece em autores como Ritter e Humboldt. A segunda é a atual, e designa um coletivo de ciências particulares especializadas na pesquisa e no conhecmento fragmentário dos pedaços da natureza inorgânica para os fins práticos da sociedade.

A rigor, as frações setoriais surgem primeiro, a geografia física como um nome do coletivo surgindo depois (e o Tratado de geografia física, de De Martonne, é o que melhor a representa). […]

Para a crítica do conceito de natureza na geografia

O paradigma ecológico

É com Haeckel (1834-1919), em 1866, que nasce a abordagem de ecologia.

A concepção ecológica é uma explicação holista do mundo, tomando por referência o processo de síntese da vida realizada por meio da integração entre o inorgânico e o orgânico, via o processo de fotossíntese, tal como Humboldt desenvolvera em seu livro Geografia das plantas, de 1808. O movimento do todo é visto como uma transfiguração da relação abiótico-biótico numa cadeia de recíproca interação.

Se o paradigma cartesiano-newtoniano unifica a natureza a partir do movimento físico, excluindo e hierarquizando a partir dele, o paradigma ecológico unifica-a e a diversifica a partir do movimento da vida.

[…]

Tanto os aspectos inorgânicos (abióticos) quanto os orgânicos (bióticos), como também os aspectos sociais (mais que a pura relação homem-natureza), participam da composição do movimento. […]

O espaço da espiral

Está implícita nessa abordagem a ideia de que a natureza evolui em espiral, e não em ciclos que se fecham sobre seu próprio ponto inicial e partida.

Isto significa que a natureza não se reduz a um paradigma de movimento, mas a uma face múltipla de que participam tanto o movimento físico quanto o biológico e o humano, porque a natureza é antes de tudo história.

  • A síntese da vida é o elo que une e separa a diversidade da natureza
  • A evolução é a diferenciação das formas
  • A totalidade é totalização
  • O mundo é a sua diversidade
  • A superfície terrestre é o modo de ser geográfico da natureza e do homem por ser onde obrigatoriamente interagem

[…] A natureza é o movimento em que as formas saem umas das outras, a vida da matéria sem vida, a matéria sem vida da matéria viva, num mundo que dialeticamente ora é equilíbrio e ora é desequilíbrio, ora ordem e ora desordem, ora cosmos e ora caos, um saindo do outro, um e outro sendo o ser e o não-ser, num devir em que o real não é um nem outro, e ao mesmo tempo é um e o outro, o equilíbrio dando luz ao desequilíbrio e o desequilíbrio dando luz ao equilíbrio, a ordem à desordem e a desordem à ordem, esta sucessão de mediações sendo o real-concreto. Do qual a senso-percepção só alcança o lance, confundindo o verdadeiro como um mundo de formas.

Milton Santos

TÉCNICA, ESPAÇO, TEMPO - Globalização e Meio Técnico-Científico Informacional (Editora Hucitec, São Paulo, 1994)

1) Globalização e Redescoberta da Natureza

[…] Essa evolução culmina, na fase atual, onde a economia se tornou mundializada, e todas as sociedades terminaram por adotar, de forma mais ou menos total, de maneira mais ou menos explícita, um modelo técnico único que se sobrepõe à multiplicidade de recursos naturais e humanos (Santos, 1991).

É nessas condições que a mundialização do planeta unifica a natureza. Suas diversas frações são postas ao alcance dos mais diversos capitais, que as individualizam, hierarquizando-as segundo lógicas com escalas diversas. […] Cada lugar, porém, é ponto de encontro de lógicas que trabalham em diversas escalas, reveladoras de níveis diversos, e às vezes contrastantes, na busca da eficácia e do lucro, no uso de tecnologias do capital e do trabalho. Assim se redefinem os lugares: como ponto de encontro de interesses longínquos e próximos, mundiais e locais, manifestados segundo uma gama de classificações que se ampliando e mudando.

[…] Una, mas socialmente fragmentada, durante tantos séculos, a natureza é agora unificada pela História, em benefício de firmas, Estados e classes hegemônicas.

[…]

Se antes a natureza podia criar o medo, hoje é o medo que cria uma natureza mediática e falsa, uma parte da Natureza sendo apresentada como se fosse o Todo.